Com uma vitória expressiva ainda no primeiro turno sobre o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), Tarcísio de Freitas (Republicanos), 51, garantiu mais quatro anos à frente do governo do Estado de São Paulo. A apuração avançou e, com 90,02% das urnas contabilizadas às 19h41, o atual mandatário registrou 62,85% dos votos válidos, superando os 36,22% obtidos pelo adversário petista.
Retrospecto histórico e dinâmica da disputa
Essa foi a primeira vez que a sucessão estadual paulista foi definida na etapa inicial desde 2014. Naquela ocasião, o atual vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), filiado ao PSDB na época, conquistou 12,2 milhões de votos, o equivalente a 57,31% dos válidos, assegurando a vitória logo no primeiro turno da disputa.
A corrida eleitoral foi marcada por um tom considerado monótono. Bem avaliado pela população, o governador adotou uma estratégia de menor exposição pública para mitigar riscos de falhas. Por sua vez, o representante do presidente Lula (PT) enfrentou dificuldades para expandir sua base em um estado historicamente marcado pelo antipetismo.
Aprovação popular e bastidores políticos
O chefe do Executivo paulista alcançou a reta final da campanha com uma taxa de aprovação de 47% em sua administração, conforme dados do Datafolha. Antes de concentrar esforços na corrida pela reeleição, seu nome chegou a ser cotado por alas do centrão para uma eventual candidatura à Presidência da República, projeto que ele evitou endossar publicamente. Com a exclusão das articulações da direita para o planalto no final de 2025, o foco voltou-se inteiramente para o cenário estadual.
Tanto o comitê de Tarcísio quanto o de Haddad projetavam o encerramento da disputa ainda no primeiro turno. O governador unificou o apoio de todas as siglas da centro-direita, bloqueando espaço para concorrentes alternativos nesse espectro. Analogamente, Haddad aglutinou as principais legendas da centro-esquerda, apesar da presença de candidaturas menores que não ganharam tração nas urnas.
Financiamento e estratégia de comunicação
No aspecto financeiro, a campanha vitoriosa contou com maior aporte de recursos. Dados informados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até a sexta-feira anterior ao pleito indicavam que o governador contratou R$ 25,1 milhões em despesas, montante 79% superior aos R$ 14 milhões declarados pela campanha de Haddad.
Como principal colégio eleitoral do país, o território paulista concentrou os esforços das principais correntes presidenciais. O PT apostou em Haddad para fortalecer a imagem de Lula no estado, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) buscou em Tarcísio uma conexão com o eleitorado local. Diante de controvérsias envolvendo Flávio, a proximidade política foi restrita ao patamar indispensável para preservar acordos firmados com o bolsonarismo, grupo que não ocupou pastas na administração estadual durante o primeiro mandato. Nos debates, o governador evitou mencionar o aliado e o manteve ausente de suas redes sociais durante todo o período eleitoral.
O material publicitário da campanha destacou a retomada de projetos de infraestrutura paralisados, a exemplo do trecho norte do Rodoanel e das linhas 17-Ouro e 6-Laranja do metrô. Embora nenhuma das intervenções tenha sido totalmente concluída, entregas parciais serviram de base para as peças de rádio e TV, que também divulgaram avanços na habitação e o programa Tabela SUS Paulista, voltado ao incremento de repasses para entidades filantrópicas de saúde.
“Eu acho que deu certo”, disse o governador, na última quinta-feira, ao analisar sua campanha, após uma caminhada no calçadão do centro de Carapicuíba, na região metropolitana da capital.
“A gente procurou fazer uma campanha leve, uma campanha propositiva, fazendo obviamente o balanço da gestão nos quatro anos e projetando os próximos quatro anos. Eu acho que essa estratégia deu certo porque eu vejo cansaço nas pessoas desse embate, desse confronto, eu vejo a exaustão. Então a gente resolveu não fazer isso”, disse.
“Fui várias vezes provocado [e] não respondi, resolvi não partir pro ataque. Se pegar os meus programas eleitorais, era falando de projeto, falando de esperança, falando de balanço, falando daquilo que a gente quer fazer”, complementou.
Projetos futuros e alianças
Para o próximo quadriênio, a gestão recém-eleita prometeu viabilizar a implantação de um trem de ligação entre São Paulo e Campinas, a criação de um novo centro administrativo na região de Campos Elíseos, no centro da capital, a construção do túnel Santos-Guarujá e a expansão do metrô com duas novas linhas direcionadas a Guarulhos e à região do ABC.
Membros próximos do grupo político evitaram debater a distribuição de cargos para a nova administração. A coligação vitoriosa reuniu nove legendas além do Republicanos — incluindo PL, MDB, Democrata, Avante, PSD, PRD, Solidariedade, União e PP —, formando um bloco que já é apontado como a estrutura de sustentação para uma possível candidatura presidencial de Tarcísio em 2030, independentemente dos desdobramentos da disputa nacional.


