Vítima de um provável acidente em desnível de terreno, a filhote de anta-brasileira batizada de Timótea vem apresentando evolução clínica animadora no interior paulista. O animal, que pesava 13 quilos ao dar entrada no socorro veterinário, atingiu a marca de aproximadamente 17 quilos enquanto se restabelece de um procedimento cirúrgico ortopédico nas patas traseiras.
Varredura em canavial viabilizou socorro imediato
O episódio começou nas primeiras horas do dia em Teodoro Sampaio, nas imediações do Parque Estadual Morro do Diabo. Colaboradores da Usina Atvos avistaram o filhote ferido e imobilizado em uma plantação de cana-de-açúcar por volta das 6h30, acionando a Fundação Florestal, órgão ligado à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil).
A localização exata da pequena anta demandou buscas minuciosas. As equipes percorreram cerca de quatro quilômetros até avistarem o animal, cuja pelagem camuflada e rajada dificultava a diferenciação em meio aos restos vegetais da lavoura. A suspeita é de que o espécime tenha caído em uma depressão do relevo com apenas 20 dias de vida.
“Quando conseguimos encontrá-la, percebemos que ela realmente precisava de atendimento rápido. Pegamos a Timótea no colo, levamos para uma área onde pudemos prestar os primeiros cuidados e fizemos a imobilização da perna. A partir dali, começou uma mobilização de várias equipes para que ela pudesse receber o atendimento necessário”, conta a diretora de Biodiversidade da Fundação Florestal, Andrea Pires.
Cirurgia com placa e reabilitação clínica
Com o auxílio da Polícia Militar Ambiental, a paciente foi transferida para a Associação Protetora de Animais Silvestres (APASS), situada no município de Assis. Diagnósticos por imagem revelaram um quadro complexo com lesões na pelve, na fíbula e na tíbia.
Para corrigir as fraturas na tíbia e na fíbula, os veterinários realizaram uma intervenção cirúrgica com a implantação de uma placa de sustentação. Já o dano pélvico segue sob conduta conservadora, dependendo de repouso e tempo para consolidação óssea. O apetite está normalizado, mas o estado de saúde ainda exige cautela redobrada.
“Ela está evoluindo bem, está se alimentando e ganhando peso. Mas, por se tratar de um animal silvestre, existem inúmeros fatores que precisam ser considerados durante a recuperação. Ainda precisamos aguardar a cicatrização dos ossos e verificar se o membro ficará totalmente funcional”, explica.
Novos exames de raio-X serão realizados periodicamente para verificar se a estrutura óssea calcificou de maneira correta e se haverá necessidade de extrair o implante metálico futuramente.
Desafios para a reinserção na natureza
A devolução do mamífero à vida livre é uma incógnita. Como foi apartada precocemente da mãe, Timótea perdeu etapas cruciais de aprendizado essenciais para a sua autonomia em matas nativas.
“Timótea é muito jovem e estaria em uma fase de forte dependência materna. Na natureza, os filhotes permanecem com a mãe por um período que pode chegar a dois anos, aprendendo comportamentos fundamentais para sua sobrevivência. Como ela foi encontrada sozinha e precisou ser resgatada, ainda não é possível estabelecer uma previsão de soltura. Agora, nossa prioridade é a recuperação e o bem-estar do animal”, reforça Andrea Pires.
Importância da espécie para a biodiversidade
Classificada cientificamente como Tapirus terrestris, a anta é o maior mamífero terrestre do território nacional. A espécie desempenha um papel ecológico insubstituível ao ingerir frutos inteiros e espalhar sementes viáveis por grandes distâncias ao longo de suas caminhadas.
Por causa desse comportamento dispersor, o bicho carrega o apelido de jardineira das florestas. Preservar indivíduos no entorno de unidades de conservação, como o Parque Estadual Morro do Diabo, é fundamental para assegurar a regeneração contínua da Mata Atlântica e a manutenção dos corredores ecológicos regionais.


