A atuação de catadores de materiais recicláveis costuma ser marcada por forte precariedade, ausência de garantias trabalhistas, perigos constantes à saúde e episódios de preconceito. No entanto, quando esses profissionais se unem em cooperativas, o cenário muda radicalmente, permitindo o alcance de ocupações dignas, remuneração justa, segurança laboral e o pleno gozo de direitos sociais, pilares fundamentais para impulsionar a justiça econômica e o avanço social na região.
Essa constatação faz parte do estudo intitulado “Trabalho decente e sustentável em cooperativa de materiais recicláveis”, veiculado no volume 50 da RBSO (Revista Brasileira de Saúde Ocupacional).
Metodologia da investigação e transição do lixão
O trabalho científico adotou uma estratégia comparativa com o objetivo de entender de que maneira a condição de cooperado transformou positivamente a rotina e a saúde desses profissionais, fazendo um contraponto direto com o período em que atuavam no lixão.
O projeto foi dividido em duas fases distintas. Inicialmente, o levantamento examinou registros históricos para mapear os elementos motivadores que levaram os trabalhadores de Presidente Prudente a criarem a cooperativa. Na sequência, 47 dos 90 profissionais ativos foram entrevistados para avaliar a dinâmica operacional, os índices de segurança e o ponto de vista dos próprios cooperados a respeito do seu bem-estar no ambiente de serviço.
Evolução na segurança e na gestão compartilhada
Entre os principais ganhos identificados no dia a dia estão o fornecimento regular de EPIs (equipamentos de proteção individuais), treinamentos constantes, além da criação da Cipa (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) e de políticas voltadas estritamente para a mitigação de riscos de acidentes.
Outro ponto de destaque foi a própria estruturação das atividades, uma vez que a administração dos setores operacionais e administrativos passou a ser feita de forma coletiva e democrática pelos próprios envolvidos. Na cooperativa, todos têm autonomia para exercer qualquer função, enquanto os ganhos financeiros são repartidos igualmente entre os participantes.
Impactos na economia solidária e igualdade de gênero
Para as pesquisadoras Maria Luísa A. Pereira e Iracimara de Anchieta Messias, os benefícios alcançados vão muito além do aspecto financeiro e do formato de contratação, abrangendo melhorias significativas em saúde, qualidade de vida e paridade entre os sexos.
“Na cooperativa, há uma maior inclusão e valorização do trabalho feminino. Os dados sobre o número de mulheres e o papel na triagem dos materiais indicam que, na cooperativa, há uma maior participação de mulheres em funções de triagem e gerenciamento, promovendo a igualdade de gênero e empoderamento feminino”, exemplificam.
Alinhamento com os objetivos globais da ONU
A análise reforça que a economia solidária funciona como um instrumento poderoso tanto para a qualificação do ambiente laboral quanto para a geração de resultados socioambientais expressivos, consolidando o conceito de trabalho decente atrelado à sustentabilidade e à inclusão.
Com base nisso, as autoras ressaltam que a experiência bem-sucedida dos catadores dialoga diretamente com diversos ODSs (objetivos de desenvolvimento sustentável) estipulados pela Agenda 2030 da ONU (Organização das Nações Unidas). A iniciativa contribui para o ODS 1 (erradicação da pobreza), ODS 3 (saúde e bem-estar), ODS 5 (igualdade de gênero), ODS 8 (trabalho decente e crescimento econômico), ODS 10 (redução das desigualdades) e ODS 11 (cidades e comunidades sustentáveis), além de manter forte ligação com o ODS 12, focado no consumo e na produção responsáveis.


